Os meus neuronios sao cor de rosa
7.5.04
 
Nenhum lugar




As vertigens trespassam sempre o corpo durante a noite. Porque é de noite que o corpo trespassa um outro. Vertiginosamente, em queda livre para o lugar onde as asas se quebram no chão. Nenhum lugar.
28.4.04
 
A invenção do olhar


Os olhos nossos não vêem o que o pé descalço não põe a descoberto, o que a mão não desenha, o que as vozes não discutem através das constelações.
Os olhos não vêem. Inventam.
 
Raízes de Abril


Despoetiza os pedaços que criei e chamei de palavras e se reacendem em mim. Esconde-os e depois do meu desaparecimento, multiplica-os aos milhares e lança-os contra o vento impulsivo que não é de Norte nem de Sul, mas que sopra de todos os pontos cardeais.
Coloca anúncios por todo este país a anunciar a minha morte.
Esconde o meu corpo por dentro de um livro, qualquer livro e deixa-me enrolar por entre as palavras que se propagam ao espelho perante as bocas mudas.
Inventa rastos de mim por entre as folhas caídas de um jovem plátano para que me misture com as raízes e me possa ramificar por toda a terra.
Escreve por debaixo do sol a palavra L-i-b-e-r-d-a-d-e e deixa-me Ser. .
Ser flor vermelha, fotografia a preto e branco, sorrisos de incredulidade, amanhecer aberto sobre todo um país mudo, ser possibilidade de tudo, ser realmente gente. E eu...
...raiz espraiada por debaixo de todos para me ramificar na memória da história. Como se tivesse morrido por toda a poesia que se passeia na palavra Liberdade.


22.4.04
 

Podem parar com as apostas em como eu estou viva ou morta. Isso é coisa feia de se fazer, eh eh!!
Estou viva, de boa saúde e recomenda-se. Resolvi parar com o blog durante uns tempos por razões que nem mesmo a razão entende. A vida às vezes é assim. A verdade é que às vezes ficamos tão alucinados com este "admirável mundo novo" que nos esquecemos do outro mundo, aquele lá fora onde o vento faz huuuuuu e as pessoas se movimentam ainda mais céleres que os megabytes!!!. Isto não me aconteceu de forma extrema, mas achei que deveria pegar em coisas que havia deixado um pouco de lado. Como o meu trabalho de fim de curso e outras leituras que fui deixando acumular na estante enquanto dedilhava no pc. Mas claro que volto a este cantinho que é meu e que pelo vistos continua cheia de sinapses. Volto rápido rápido.


13.3.04
 
Estou aqui!!

 
UN-DÓ-LI-TÁ!!


EL PAIS

ETA ou Al-Quaeda ? Al-Quaeda ou ETA? Un-dó-li-tá....
12.3.04
 
Tradução em estado líquido


Chove aqui e não se entende porquê.
As partes de nós que são molhadas e salgadas como o líquido que nos invade a superfície do corpo em dias de Verão, já desceram pelo nosso corpo abaixo e atingiram o chão tingindo-o de transparente. Cresce-se e continua-se sem entender nada do mundo.
 
Eu filho de Deus


Sai de casa. Hoje será o dia da tua morte.
Não te escondas em becos, não corras atrás das imagens santificadas nem dos versos perpétuos.
Eu, filho de Deus espio a sombra de teus passos amendrontados
Eu filho de Deus escrevo em folhas brancas a hora do teu óbito.
À luz do dia ou sob o lustre da lua nova irei soletrar "Foste", irei dizer que "Eras".
Não há poesia na morte nem na quase-morte. Ficarás fora de tudo
fora do espaço tempo. Entre o que é breve e o que é eterno
entre o toque doce da água que aos outros eleva e os vapores vermelhos de um Inferno imaginado criado encenado.
Agitado num turbilhão do que deveria ter sido. Haverá pranto. E de mais não saberás porque tudo o que vem depois é demasiado cruel para se ver na televisão.
Fim

Não matarás
(6.º Mandamento)

11.3.04
 
Entra


Abres a porta devagar
e em silêncio. Em silêncio contigo e com o mundo.
O importante é não disturbar a marcha lenta do mundo. Lá dentro, por dentro do mundo por dentro do quarto, a luz alaga as paredes lisas de recordações, o chão mudo de passos.
Tu entras. Eu entro. Entro sem certezas. Em silêncio,com os ecos das vozes que saem do livro aberto no centro do quarto. Deixa-as ecoar, deixa-as falar, contar e inventar se for preciso. Tu não as ouves.Eu decoro-as para ti. Para as voltar a escrever e depois anular sobre a minha pele sem luz.

 
Se se se


Se escrevo
é para ocupar os espaços que se passeiam à minha frente,
desabitados.
Se te lembro na sequência das letras
que aprendi a desenhar na escola é para não me deslembrar de que há muito fui menina.
Se respiro é para festejar.
O quê? Perguntas tu
A invariabilidade do sabor do açúcar na ponta da caneta com que escrevo o teu nome
e o meu regresso à vida.

10.3.04
 

A actividade da qual vos falo hoje tem-se fortalecido ao longo das décadas como desporto nacional em Portugal e tem ganho praticantes apesar das expectativas em contrário, já que apresenta a possibilidade de poder ser praticado tanto ao ar livre como dentro de casa. O facto de bastar um para o jogar ajuda pois como sabemos o zum-zum da vida moderna tem contribuído para a proliferação de actividades solitárias. Não falo de futebol, falo da higiénica actividade da limpeza do salão. Isso mesmo falo em limpar o salão, pôr o dedo no nariz, tirar os macaquinhos ou seja ir ao fundo da questão!!
À minha frente no comboio sentou-se hoje um "Senhor" que passou pelo menos a meia hora que durou a viagem até Lisboa a exercer o seu direito à higiene. Acho bem, acho bem. O dedo mindinho, dado o seu tamanho universal e ideal foi o utensílio higiénico do momento!! Primeiro limpa a narina esquerda. Escarafuncha, escarafuncha a narina esquerda com movimentos circulares ora com maior profundidade ora mais superficialmente, tira o dedinho, observa o dedinho enquanto o roda sobre si mesmo para não lhe escapar nada, e não contente (algo devia continuar a incomodar a fossa nasal) volta a escarafunchar. Passa à fase seguinte da limpeza: escarafunchar a narina direita. Dedinho lá dentro a escarafunchar, escarafunchar com movimentos circulares e novamente a observação do utensílio de higiene. E este ritual diasóstico continuou... de narina em narina o dedinho mindinho limpou entre suspiros. Ora eu não sei se este "Senhor" saiu a correr de casa atrasado para o trabalho e talvez não tenha tido tempo para o seu momento diário de asseio nasal mas pareceu-me ser um perfeccionista. Não ficou macaco no galho para contar histórias. Saí do comboio e o Senhor - Limpeza já estava na quinta ronda. E eu pergunto: o que faz este homem em casa sozinho, na privacidade do seu lar?? Colagens na parede de macaquinhos embalsamados?
 
Um post feliz


IUPPPYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY!!!!!!!!!!!!!!!!
(Eheh,o gato gastou a sua sétima vida neste salto)
9.3.04
 
De novo o Dia Internacional da Mulher



Dia 8, ontem foi o Dia Internacional da Mulher. O ano passado também se ouviu falar deste dia que celebra a condição feminina e para o ano cheira-me que não será diferente. Eu não fiz nada de especial ontem. Não fui de propósito dar um beijinho a nenhuma mulher especial na minha vida, nem fiz nenhum telefonema especial para comemorar a data. Vou tentando fazê-lo todos os dias. Nem sempre consigo.
O importante não é celebrar o DIM. O importante seria não celebrá-lo e o mesmo digo no que se refere ao Dia Internacional da Árvore, do Deficiente, da Água, e restantes. Por alguma razão se celebram estes dias. Ou porque se trata de uma espécie ameaçada, ou porque estamos a desperdiçar demasiada água ou porque mulheres continuam a ser maltratadas ou crianças continuam a não os seus direitos protegidos. Se se celebra tudo isto não é por coisa boa. Pouco muda e só se refresca a consciência de algumas almas com propensão para a insónia.
 
O "Boi" ou como ser grande por fora e pequeno por dentro - uma questão de equilíbrio



Ser boi não é para qualquer um. Só com algum esforço se atinge a tão almejada categoria de boi e só alguns(os melhores bois) o conseguem. Não se chama de "boi" a qualquer um. Há características específicas que se deve ter para se ser chamado de boi. É por isso que se chamam a uns de parvos, a outros de idiotas, a outros ainda de estúpidos e a outros de bois. Há uma hierarquia.
Pois bem, primeiro que tudo para se ser "boi" é preciso ser homem (também há um equivalente a boi para o feminino mas isso fica para outro dia), é preciso ser grande, no mínimo tão grande como o Malato ( por mais "boi" que se seja só se é chamado de boi se for grandinho, se tiver em largura quase o mesmo que tem em altura). Em situação alguma se chama de "boi" a um rapaz franzino, por mais que a sua postura revele tendências de "boi". Esse moço franzino no máximo será apelidado de grunho. Ou seja, ser boi exige determinadas características fisionómicas que podem ser acentuadas em qualquer ginásio de bairro e regadas com umas quatro gemadas por dia.
Graças a Deus, essa grandeza de massa corpórea é compensada com uma microscópica actividade cerebral. Poucas sinapses para poupar energia necessária à actividade física favorita que é esmurrar o bacano que passou e que olhou de soslaio para o boi. Para se ser boi tem por isso que se ser grande por fora e pequeno por dentro. O que volto a afirmar não é para todos já que o equilíbrio é difícil de manter!!
Ser "boi" requer também ser possuidor de um sentido de timming estupendo, não se pense ser fácil ser impróprio quando não se deve. É bem mais fácil ser um simples idiota do que animal de pasto. Ser boi requer um exímio jogo de cintura, bom sentido de oportunidade. Há que saber espantar os outros, deixá-los de boca aberta!! Uma outra premissa para se ser boi é que um boi é sempre um boi quer vista um fato do Hugo Boss quer vista fato-de-treino cor-de-laranja. Decididamente não é o hábito que faz um boi, mas sim é o boi que se faz a si próprio. É o boi um self made man. Tudo o que conseguiu foi à custa do seu esforço.
O verdadeiro "boi" consegue dizer a maior grunhice e não se engasgar ( falamos aqui de um excelente auto-controle), consegue soltar em tempo mínimo uma quantidade extraordinária de grunhices que deveriam ter ficado enterradas no seu minúsculo cérebro(sempre dava a sensação de que tinha um cérebro maior do que tem) e tem um sentido de humor refinado, já que consegue rir de si próprio quando os outros se riem dele e lhe chamam de boi.
6.3.04
 
BIRD ON THE WIRE


BIRD ON THE WIRE
Like a bird on the wire,
like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free.
Like a worm on a hook,
like a knight from some old fashioned book
I have saved all my ribbons for thee.
(...)
Like a baby, stillborn,
like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me.
But I swear by this song
and by all that I have done wrong
I will make it all up to thee.
I saw a beggar leaning on his wooden crutch,
he said to me, "You must not ask for so much."
And a pretty woman leaning in her darkened door,
she cried to me, "Hey, why not ask for more?"
Oh like a bird on the wire,
like a drunk in a midnight choir
Ihave tried in my way to be free.

Leonard Cohen
5.3.04
 

Já me apeteceu mais muita coisa. Hoje não. Fico-me por aqui. Não me apetece nada em concreto não deixando de me apetecer nada em especial. Fico-me mesmo por aqui. A olhar o ar que olha para mim estático. A ver a nuvem que passa sem que eu a movimente. À espera que me apeteçam outras coisas ou que, talvez um pouco do que já me apeteceu volte a apetecer. São tempos modernos estes. Um homem já não se entende a si mesmo e as nuvens continuam a movimentar-se mesmo que não haja nem uma lasca de fé abaixo delas, onde nem tudo é azul mas onde tudo é possível. Até o movimento imaginário da alma numa bola redonda suspensa no Universo.
 

Fogo com fogo



Há um fogo imenso.
Há um fogo que arde e se extingue como obra de um pirómano revoltoso com a terra infértil onde nasceu. Há um fogo que é chama e que será cinza ... que é homem e que será Deus. Há um fogo que ficará como marca na pele. Há marcas desse fogo em mim. Há uma terra ardida, esbatida por labaredas a crescer em carne viva que ficam na pele a perambular como manchas de alcatrão em chão de areia. Há a minha interpretação dos sonhos, a minha audição dos ventos e o toque húmido das marés...e sempre sempre um fogo imenso aqui....Alma ardida é cor de cinza. Alma alada é cor de sol a escorrer pelo meu pé.
20.2.04
 

Nina, ... inquieta.. escreveu o seguinte post que me deixa a pensar:
"...mas de onde vem, então, esse gesto monstruoso?
- Da natureza, minha filha."
Marquês de Sade, Histoire de Juliette (1796)

E eu penso.... Nina, de que natureza falava o Marquês? Da natureza humana? A minha alma inquieta crê que só a natureza humana tem poder para gestos monstruosos. Só pode o Marquês referir-se à humana. Pois...a natureza, a natureza do mundo, a que faz girar o planeta e os astros, a que torna as plantas verdes, as flores coloridas e exóticas, a que agita as ondas salgadas num constante vai-e-vem, a natureza que cria fogos no interior de crateras, a que carrega a areia nas costas, das praias para os desertos e nos dá as cores alaranjadas de um fim de dia...esta natureza não é a humana, esta natureza que cria os ventos. Os "gestos mosntruosos" fluem somente de pensamentos humanos. Humanos e com tão parca natureza dita "humana". Contraditório paradoxal, bem como o nosso olhar humano-mosntruoso sobre as coisas... belas da natureza que de tão belas só conseguimos asfixiar.
 

Opinar

As opiniões podem e devem ser livres. Mas,... e as pessoas que dão as opiniões? Livres são?
9.2.04
 

Dança comigo


Dança, danca comigo.Dança para mim que eu bailo para ti. Decadência dos corpos, gestos decisivos. Dança comigo. Vê a mão que te segura a rodopiar.É simplesmente a dança, só dança numa tela pintada a vermelho. É este som amaldiçoado, ora inerte ora mais veloz que o olhar, que nos dá a eternidade da dança... a razão está muitos metros abaixo do chão que pisamos e que range a cada batida acelerada. É só para te convidar a dançar. Eu em vermelho- vivo, tu em vermelho- sangue.
Perdemo-nos nos passos, ora tu ora eu mas não deixamos de ser perfeitos nestas paredes. Encontrar-nos-emos em todas as cadências neste salão a ecoar. Dança comigo. Dança. Somos perfeitos nestas paredes, somos a tragédia vestida num vermelho, tom eleito, vermelho vivo, sangue. E não há dança para o amor entender. Nem tempo para a dança bailar. Dança dança dança. Em vermelho-vermelho sangue, sangrar de tanto amar a dançar .... e o salão sempre sempre a rodopiar.


8.2.04
 

Deuses

Sobre os Deuses, não tenho possibilidade de saber se existem ou não, nem qual é a sua forma.
Muitas são as razões que me impedem tais conhecimentos, a obscuridade da questão e a brevidade da vida.
Protágoras


7.2.04
 

Andrómeda



Andrómeda não se vê daqui. Não faz mal, pinta-se o tecto do céu com tinta cintilante permanente e apagam-se as luzes. Deitamo-nos de encontro ao chão virados um para o outro e Andrómeda há-de voltar.
28.1.04
 

A Luxúria (II)




Cai agora abruptamente no precipício do meu corpo Abruptamente como se eu não o esperasse Cai na zona em que o movimento das dunas do meu corpo se conjuga com o ritmo possante dos cavalos que atropelam selvaticamente a minha alma Agora deixa-te fluir através dos contornos do meu corpo através da tua respiração ofegante que nada mais é que o vento a soprar a areia do deserto O teu corpo está sobre o meu e o meu por debaixo do teu Tu por dentro de mim e eu a aquecer-te no fogo que incendeia as estepes da minha pele Beija-me pelo lado de fora para eu saber que me amas pelo lado de dentro Fecha os olhos não precisas deles Sente aquilo que não vês Aquele que não vê pode sempre ter mais do que aquilo que apenas poderia ver Abraça-me tu agora Obrigada Não digas nada Como é bom não ter de dizer nada Rodeia o meu corpo com as tuas mãos Não perderás o tacto uma mão encontrará a outra Sentes-te parte de mim? Deixa uma mão tua dentro de mim Prefiro a direita que é a que tem mais força Sentes o que eu sinto? Não respondas Espera antes inunda-me até ao espaço fronteiriço do meu pensamento Melhor afoga-o no teu calor e cai cai algures sobre o deserto
18.1.04
 

Em 5 segundos primeiro puxe a porta do seu lado direito e de seguida empurre a porta do seu lado esquerdo

Devem haver mais como eu. Mais seres que volta e meia trocam as voltas e passam as maiores das vergonhas públicas. Eu explico. Para começar, desde criança que tenho um "ligeiro" problema entre a "esquerda" e a "direita". Coisa simples e básica para muitos, situação de grande embaraço público para mim. A coisa lá foi andando, comigo a parar para pensar antes de ter de fazer uso da mão esquerda ou direita consoante a necessidade - embaraço total no momento de dar a impressão digital com a mão que a sra. queria no Arquivo de Identificação(devo ter passado por lerdinha algumas vezes).
A forma que tinha e ainda tenho para não me enganar nestas coisas de direcções é parar e pensar rápido que a mão direita é a que tem mais força logo só pode ser "esta" mão, (sim sim, a direita é esta)a mão com que escrevo. Com a mão esquerda poucas coisas podemos fazer (Ainda bem que não sou canhota). Este problema entre direita e esquerda, ganhou contornos mais sérios e possivelmente mais perigosos quando comecei a ter aulas de condução. O instrutor dizia rápido rápido "Agora vira à esquerda!" e eu tonta a olhar para os dois lados à espera que aparecesse uma seta luminosa e a piscar a dizer "ESQUERDA" e uma outra seta a dizer "DIREITA" . E eu a suar lá parava de novo para fazer mais um raciocínio que de lógico só mesmo na minha cabeça: "Mais Força = Direita/Menos Força = Esquerda!"
Uma outra situação de humilhação pública pela qual passo dia sim- dia sim tem a ver com portas. Sim, portas!!Dou-me mal com portas envidraçadas, daquelas devem mesmo ter sido limpas com CIF Limão e que devem ter passado no teste do algodão já que de tão limpas e transparentes nem damos por elas(quase fantasmagóricas) mas que regra geral e pela minha experiência em galos posso dizer com toda a certeza que a maioria das vezes, elas já lá estavam e que nós é que não as vimos mesmo. E pior que portas envidraçadas do reino do invisível e pior que a Equerda/Direita, só mesmo o "Empurre" e o "Puxe".
O "Empurre" e o "Puxe" dão comigo em doida. Quando nas portas está "Empurre" eu puxo, quando diz "Puxe" eu empurro. É simples, talvez devesse então começar a pensar ao contrário não?Nunca acerto e raramente tenho a certeza. Se não sou doida de certeza que devo parecer, já que muitas vezes quando é para Puxar eu empurro e se a porta não abre eu continuo a empurrar, certa de que eu é que tenho razão e que algum parvo escondido trocou o autocolante e se está a rir de mim.
Imagine-se o efeito de uma frase tipo " Em 5 segundos primeiro puxe a porta do seu lado direito e de seguida empurre a porta do seu lado esquerdo"
17.1.04
 

A normalidade é restrita e restritiva. Mas tem uma qualidade: é segura. Nada melhor para quem tem medo da diferença e da consequente rejeição.

Garcia Baptista
11.1.04
 

Memória de mim


Hoje ao acordar de mim da noite, de mim na noite, de mim pela noite que passou coloquei vagarosamente o meu corpo em frente a mim mesma que é o mesmo que dizer que de mim só vi a imagem reflectida na sombra da manhã de domingo. Bem feitas as contas não me lembro por onde andei mais de metade da minha vida. Lembro-me destas últimas noites e de algumas das últimas horas à luz do fresco dia, tenho alguma (pouca)memória no que toca a acontecimentos passados mas ainda assim faltam pedaços de mim no tempo, no espaço, em mim, de mim. Falto eu em mais de metade da minha vida. Faltam-me muitas outras noites, movimentos, horas luzidias comigo por dentro. Por vezes a memória traz-me flashes de mim mesma. Os outros... quase sempre por lá, perto, presentes no passado, presente e previsão do futuro. Por vezes consigo relembrar-me de mim mesma. E eu aqui a querer esquecer-me já do que me queria lembrar de mim.
28.12.03
 

Devido a problemas técnicos e escabrosos não me tem sido possível postar nestes últimos tempos. As novas tecnologias nem sempre são assim tão inovadoras e no que me toca parece mesmo que estou a viver na pré-história da era da Informática!!O meu laptop deu o berro e tenho estado sem Internet, sem vício, sem escrever. Lá me vou safando com a generosidade dos computadores alheios. Mas não é o mesmo. Escrever num computador que não é o nosso, é diferente. As palavras não saem como saem no nosso próprio computador, parece até que as palavras estão em marcha-atrás e depois é o pensamento que não quer desenvolver. Mas.... (há sempre um "mas") em Janeiro os Neurónios regressam possivelmente ainda de ressaca do fim de ano.

15.12.03
 

É quase manhã no céu

Esta noite procurei muitas coisas. Rastejei por muitos cantos, sentei-me sobre muitas rosas e seus picos, desalinhei notas de música, roubei a cor vermelha ao mundo, escancarei janelas e portas de casas alheias, revivi uma infância açucarada de tão longínqua, estiquei as partes do meu corpo ao limite, embriaguei-me em copos rachados pelo calor, subi e desci ruas fictícias, li versos envenenados linha a linha, afundei-me nos ares sussurrantes dos corpos vizinhos, espremi seiva ácida dos arbustos da cidade e deitei-me sobre o meu próprio pesadelo. Só não consegui rasgar a noite com as luzes da manhã prometida.

11.12.03
 

Estória de mim aqui, ali e ali

Estórias enroladas em estórias. Não somos nada mais que isto. Estórias que começam noutras que não têem nada a ver, estórias que se enrolam noutras até mais não conseguirmos ver onde começa uma e acaba a outra. Como páginas de vários livros misturadas. Sou uma estória enrolada numa outra que começou sei lá onde e que desconheço onde vai terminar.
Da minha estória vou sabendo ao pegar numa outra, ao ler uma outra nas mãos de alguém, ao escrever uma estória sobre as àguas pacíficas sobre alguém, sem saber onde começa a minha. É difícil não nos perdermos em tantas páginas, estórias que podem ter todos os nomes de gente e mais algum.
Este foi um pedaço da minha estória. Dum qualquer livro à escolha.
8.12.03
 

PROCURA-SE


Das noites encantadas sem rasto.
Do silêncio, da quietude, som silvoso... da pedra que roça a superfície aquosa sem mergulhar, quanto oxigénio tem o mar que é rio e lago sem luz qualquer a espelhar... das luzes incendiadas na noite e figuras esfumadas para lá da palma da mão. Corre corre rio acima com a mão solta sobre o ar da noite que com luz é quase dia nos vestidos brancos dos seres a rodopiar. Do silêncio.... é mesmo sem som. Do silêncio, o coração a bater depressa depressa, da alucinação de pegadas rastos no ar.
Das noites encantadas, nem rasto vestígio. Só duendes, fadas, sombras semi-luminosas que dançam sobre o luar da imaginação. Das noites encantadas, que as pedras que roçam a superfície aquosa dançam mergulhando, e não conseguem acima dela retornar.

5.12.03
 

Filme e pantufas

Hoje é noite de cinema na minha sala. O frio a isso convida. Pijama, pantufas, chá, bolachas de chocolate e lareira a crepitar aos meus pés. A sessão está esgotada, acho até que alguém vai ter de ficar com o lugar do chão e este lugar é à escolha. Chão há muito, nesta casa.
Só não sei ainda qual o filme que vou alugar. Alguém dá uma idéia?
4.12.03
 

Secretária de Babel



A minha secretária está uma autêntica Torre de Babel. Há livros e folhas soltas em línguas para todos os gostos: Castelhano, Português Europeu, Português do Brasil, Inglês, Francês, (Alemão não porque não tenho pachorra para os fenómenos de aglutinação que são como cogumelos na língua alemã),blá blá.... e eu por cima destes livros a pairar com neurónios a ponto de embaterem a 1000 à hora.
No Génesis(Antigo Testamento) a diversidade de línguas no mundo é apresentada como um castigo divino que pune os homens retirando-lhes a capacidade de se entenderem numa língua una, que Adão teria inventado.
De tudo isto concluo que eu estou a sofrer um castigo divino que escapa ao meu entendimento, e que Adão não era com toda a certeza um Comparativista.


2.12.03
 

Eu sei que está frio mas talvez por isso mesmo prefira sair hoje. È que hoje todos os que por mim passaram na rua me pareceram focos de calor, almas resguardadas do frio. Esta mesa cheia de livros que contam histórias da minha língua nunca me pareceu tão fria.
 

De Hiroximas e outros lugares e outras pessoas



O mundo é menos rosa do que parece....

ROSA DE HIROXIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinicius de Moraes

1.12.03
 

O Boletim Metereológico


Prevê-se para hoje em Lisboa (perdoem-me os que moram no resto do país mas a minha bola de cristal tem alcance reduzido)um dia limpo, de céu azul com nuvens brancas, esponjosas e fofas como algodão doce da Feira Popular, boas para nos deitarmos nelas. Podem adormecer em cima das nuvens à vontade. Prevê-se também pouco vento, apenas umas leves ondulações de brisas a lembrar a infância.
Temperatura amena, o casaco pode ficar em casa.
Hoje só as asas vão fazer falta.
29.11.03
 

A Luxúria

Olha para mim Deita-te em mim Mergulha sobre mim Perde-te em mim Adormece na minha cama Eu sou a tua cama e tapa-te com estes lençóis que são os meus braços amplos Sentes sede? Qualquer sede? Bebe o meu suor que é a tua água A água da mais pura nascente do mais rico vale Procura-o Procura-me Entra em mim penetra-me para me encontrares Não tenhas vergonha todos procuramos algo Podes agora gemer Geme contra a solidão do meu corpo Para não te sentires só eu gemo também Gememos os dois um para o outro cada um para si os dois contra as paredes do quarto Ainda bem Ainda bem que é assim.
28.11.03
 

O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar
para que não se extinga o seu lume
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

27.11.03
 

Hoje não...

Hoje não. Hoje vou ficar lá em cima ... suspensa acima de mim mesma sem olhar cá para baixo. Sem som... só com ar para me balançar.
 

Do bolso, o beijo

E no bolso esquerdo do teu casaco dizias tu ser o lugar clandestino para os teus vícios. Onde guardavas o tabaco e os beijos para mim. Tira um cigarro para fumar e traz à boleia da mão um beijo... um beijo daqueles solto para que eu o fume e esqueça de travar.
 

A Gula


Todos os dias peco Senhor e todos os dias voltarei a pecar com gosto e devoção. Não é preciso perdão, para algo que se faz e volta a fazer sempre com muita vontade.
Porque gosto do sabor das delícias açucaradas que vejo na montra das pastelarias em Lisboa, do gosto do chocolate a derreter entre a língua e o palato, de lamber os dedos peganhentos com gelado de baunilha e pedaços de bolacha, de batidos de banana com extra-açúcar, das panquecas enroladas com doce de figo caseiro ao domingo à tarde.
É o mais delicioso pecado de todos.


25.11.03
 

Da mão que respira, da mão que escreve

Escrevo aqui para não escrever sobre o meu corpo, pois a tinta sobre meu corpo deixa sequelas impossíveis de apagar com toques... carícias feitas borrachas amenizam apenas o tormento, não a marca da violência das letras registada na minha epiderme sobreescrita.
Escrevo aqui para não asfixiar a minha pele com estas palavras que se alimentam de mim.


 

Da Fonética .... como o ar cintilante que acompanha as vogais

Gosto das palatais e das velares que saem com o ar da tua boca feita livro. Dos acentos circunflexos em bold que nos resguardam aos dois da chuva.
Gosto das vogais médias das posteriores e das anteriores que enfeitam o hemisfério da sintaxe do teu corpo. Agradam-me as reticências como que as pausas entre as doçuras dos pensamentos cintilantes, do prefixo re- para a ideia de repetição, repetir a caminhada sobre a relva fresquinha verdinha, agrada-me pois então também o sufixo diminutivo -inha para as coisas pequenas pequeninas da vida, tão pequenininhas que nem damos por elas e às vezes é bom andar por aí de cabeça distraída a pairar sobre as ideias, ou elas sobre nós, abstracções semânticas dos adjectivos que modificam o meu dia para a minha noite com sol, ensolarada a minha pele por debaixo do til, como que um guarda-sol ondulante a proteger meus pés da bola redonda a arder no céu. Gosto dos encontros consonatais, como gosto dos nossos encontros na esquinas das palavras, como gosto dos hiatos das vogais em queda livre como dois corpos entrelaçados na fonética da vida.


22.11.03
 

Curtas e embriagadas como o amor por vezes é

Hoje fiquei a remexer no ar que circula entre os espaços da nossa distância. Lambi o dedo sobre a ferida, olhei de lado para a mesa esvaziada de pontas de cigarro, enganei a conta da noite prepositadamente e o espaço não recuou o chão não parou pulsar. Eu não parei de me mexer no meio do bar incrustado no meio da chuva. E a névoa de ti... longe da cidade transparente nos meus copos desgarrados. Não quero repetir reduplicar a experiência. Ela repete-se a si mesma.


 

Late night Martini Double



- Vai um martini? Dois talvez?
- Ok, obrigada. E traga já mais dois que a minha amiga está atrasada. Deve ser da chuva. Já agora, como ela se atrasa sempre por mais de uma hora, deixe a garrafa.
21.11.03
 

No vento através do ar a matemática dos corpos

Isto é além do tempo além do espaço do teu nascimento. Ali onde caíste e onde nunca mais caminhaste. Isto é fora do alcance da mão da tua mãe que chorou e berrou e guinchou e se principiou no ar que tu menino-filho-soldado-criança já tinhas deixado de beber, e se rebentou gritando longe longe de tanta dor, parida a dor como é parida a morte de um filho. Parida a dor num outro ar rezada a um outro Deus por uma vida morta sem sistema de adição. Como se fosse a morte de um recém-nascido e não a morte de um menino já crescido. Meninos serão sempre meninos. Recém-nascidos ou crescidos aos olhos carregados das suas progenitoras. Mães que pariram a morte em corpos de vida sem o saber vinte anos antes. Meninos caem nas cidades a meio do deserto como folhas de árvore num Outono. Folha atrás de folha atrás de folha. E haverão sempre folhas sempre àrvores a parir folhas secas de vida sempre terra sagrada sobre as folhas. Menino, meu menino... um dia caminhaste na humanidade. Sepulturas ao vento uma ao lado de duas, duas ao lado de três, três.... a matemática é coisa infinita como a dor de quem pariu um menino nascido mas nado-morto com grãos de deserto nas pupilas e as mãos ainda abertas para o colo da mãe.
O tempo fechou o circulo da mãe longe do menino, a matemática dos corpos nada tem a ver com a humanidade da dor. Sem músicas de fundo. Só o vento a levar a notícia à mãe.


19.11.03
 

Atchimmmm

Tchimmmmm. Atchimmm!!!
Este blog está acamado. Entre lençóis, quatro cobertores e um edredon. A gripe parou por aqui e é Vicks por todo o lado: Vicks na mão, Vicks no cabelo, no nariz e nas minhas asas, atchiiimmmm!!, que estarão temporariamente encostadas à parede sem poderem voar pela blogoesfera afora.
Santinho!
18.11.03
 

A noite estrelada

Como não consigo ver como está o firmamento esta noite porque o edifício que se ergue à frente do meu o impede, aqui fica o desejo que esta noite seja estrelada.
As noites estreladas propiciam bons sonhos mesmo que não nos lembremos deles ao acordar enrolados nas manhãs alucinadas.
Vou fazer de conta que estou por dentro de um quadro de Van Gogh, por debaixo de uma noite estrelada.
Só espero acordar com as duas orelhas.

Noite Estrelada, Van Gogh (1889, Saint-Rémy)
17.11.03
 

Do sentido das palavras em festim sem sentido

O Gatinho Miauuuu questiona do sentido das palavras quando com muita razão (e muito miar com sentido), contrapõe o ritual de festa nas inaugurações de estádios com a festa da vida, cruel festa da vida vivida pela criança prostituta.
È cruel o festim de que se alimenta a alma humana, Gato . Nisso tens toda a razão. Mas as palavras.... essas nunca perderão o sentido. As palavras farão sempre todo o sentido. Porque é esse o sentido das palavras, dar sentido ao sentido perdido. Como o sentido que tu deste às tuas palavras perdidas na procura de um sentido perdido no festim da vida sofrido.



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